Limiar de realidades que se confrontam

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Descrição

Obras de arte, representações de um mundo onde a realidade é confrontada com a possibilidade de sua realidade, onde as interpretações e a existência se inter-cruzam em uma espécie de bailado dantesco. O trabalho de um artista não está nem para os anjos do advento anunciando uma boa nova nem para o apocalíptico, o trabalho do artista se encontra em um limiar sensível que nos possibilita enquanto expectadores vislumbrar outros modos de ser, outros modos de ver o que está à nossa frente. Há artistas que não importa qual o meio que emprega, seja o tradicional desenho com grafite ou carvão, seja o pincel ou os atuais meios digitais, o seu traço mantém a força de um grito as vezes pungente mas que também pode ter a qualidade de uma prece.

Denso, carregado de emoção assim são os desenhos e ilustrações de Sanzio Marden, os sentimentos contraditórios que convivem em nós saltam para a vida com um léxico próprio e ao mesmo tempo compreendido por qualquer um que o queira ver. Os primeiros trabalhos que vi, já se vão quase 20 anos, deste então muito jovem artista evelavam com clareza um percurso e a construção sólida de uma forma de expressão que lhe é própria. São inconfundíveis os seus traços como o é a sua influência positiva sobre os seus alunos da Oficina Escola de Artes e Ofícios em Sobral, Ceará, que preservaram muito da capacidade ilustrativa e a mesma sensibilidade para extrair do meio um repertório rico em referências etnográficas específicas e de contextos simbólicos muito mais abrangentes. Acompanhando várias fases do percurso artístico do Sanzio, encontramos momentos surpreendentemente lúdicas e outras de crítica mordaz em suas temáticas, o que não me surpreende, é ver a inquietação continua por dominar de forma mais eficiente o seu metier: novas formas, outras técnicas. Faz parte da personalidade as vezes irreverente e calada do Sanzio ousar, confluindo elementos das artes populares e do artesanato a uma obra que indubitavelmente é das
“belas artes”.

Pensando em nosso tempo presente, nunca um trabalho foi de tal forma a ilustração do mapa mental de uma realidade. Oscilando entre o imaginário e o retrato cruel dos nossos noticiários o desenho nos traz uma apresentação quase cómica da vida, enquanto as ilustrações de Sanzio nos levam á reflexão sobre o que é histórico, o floclórico ou folclorizado e o fantástico. Este Mineiro, de coração nordestino, sertanejo de espírito, beirão de caráter, dialoga em uma linguagem que é compreendida por todos nós que olhamos e sentimos o mundo ao nosso redor independente de lugar ou cultura de geração ou credo. Os personagens dos seus quadros e desenhos, soldados, capangas, jogadores, arlequins, palhaços e as mulheres, companheiras dentro destes cenários, nos induzem à um olhar por vezes sociológica da realidade a partir dos estereótipos apresentados que ora jovens ora de semblante cansado nos mostra um outro lado de um mundo por si só já liminar. Como na obra de alguns artistas naïf, mesmo que o seu trabalho esteja muito longe de poder ser confundido com este tipo de produção, a obra do Sanzio nos apresenta com precisão a felicidade e alegria oculta ou velada no lugar que o expectador de classe média só vê desconforto e tristeza; este aspeto precisamente torna o trabalho único e merecedor da mais intensa atenção e ponderação.

O conjunto de desenhos que vemos aqui estabelecem uma fácil associação com textos (imagens) que são descontextualizados em primeira instância e resignificados, fazendo-nos parar para refletir sobre os detalhes que nos alertam para os conceitos pré concebidos que carregamos. Imagens que bem podem servir para ilustrar contos de ficção e horror estes desenhos especificamente também nos mostram aspetos da ingenuidade e da inconsciência dos personagens, nós mergulhados no mundo do trabalho e de sentimentos automatizados pelas circunstâncias, somos obrigados a pensar nos contextos, a lembrar de uma multitude de referências literárias e cinematográficas pelas quais muitos de nós passamos e ver o mundo que habitamos.

Visitar o trabalho de Sanzio é encontrar o mundo que nos rodeia sobre outra perspetiva sempre.

 

Regina Raick
Graduada em Sociologia pela Universidade de Brasília(1983) e Licenciatura em Sociologia pela Universidade Nova de Lisboa(1989), especialização em Antropologia pela Universidade de Brasília(1987) e mestrado em História da Arte pela Universidade Nova de Lisboa(1996). Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia Urbana. Atuando em temas patrimônio histórico, identidade e cultura, antropologia visual, análise comparada, politicas públicas e preservação.

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